André Aguiar debate futuro do trabalho e inteligência artificial na FNE 2026

No início de 2026, fui desafiado pela produção da Feira Norte do Estudante, por meio de sua idealizadora, Inês Daou, a assumir, junto à Agência Level, a comunicação e a captação de expositores do evento, com o objetivo de potencializar ainda mais o alcance da FNE em Manaus.

Durante os meses seguintes, acompanhei de perto a construção da comunicação da feira e o trabalho de atração dos expositores. Ao longo desse processo, também surgiu o convite para participar da programação da FNE 2026 como palestrante, falando sobre inteligência artificial, futuro do trabalho, carreiras e os impactos dessas transformações na educação.

O desafio de se preparar para um futuro que ainda não conhecemos

Minha primeira participação aconteceu no painel de abertura da FNE 2026, ao lado de Inês Daou, idealizadora do evento.

Nesse primeiro momento, conversamos sobre um dos principais desafios para os jovens que estão escolhendo agora seus caminhos profissionais: como planejar uma carreira quando não conseguimos prever com clareza quais profissões, tecnologias e competências serão mais relevantes daqui a alguns anos?

A inteligência artificial, a automação, a robótica e a digitalização já estão modificando atividades, processos e profissões. Algumas funções serão profundamente transformadas, outras poderão perder espaço e novas carreiras devem surgir nesse processo.

“Pela primeira vez nos últimos 100 anos, uma geração inteira não tem a menor ideia do que vai acontecer nos próximos cinco.”

Isso não significa que tudo será completamente diferente daqui a cinco anos. Significa reconhecer que o nível de previsibilidade diminuiu.

Por isso, além de escolher uma profissão, o jovem precisa pensar em como construir uma formação capaz de se adaptar a diferentes cenários.

Soft skills e o futuro das carreiras

Essa incerteza também muda a forma como precisamos pensar a preparação profissional.

Se não sabemos qual tecnologia estará predominando daqui a cinco anos, faz sentido fortalecer capacidades que continuem relevantes independentemente dela: interpretar contextos, comunicar bem uma ideia, lidar com pessoas, aprender rapidamente e se adaptar quando o cenário muda.

É nesse ponto que as chamadas soft skills ganham ainda mais importância.

Competências técnicas continuam sendo fundamentais, e ninguém exercerá bem uma profissão sem dominar os conhecimentos necessários para sua área. O que muda é que esses conhecimentos podem precisar ser atualizados com uma frequência cada vez maior.

“Os jovens deveriam estar se preparando hoje para carreiras que ainda não existem. E por isso os soft skills são tão relevantes.”

O estudante precisa dominar conhecimentos técnicos, mas também construir uma base que permita compreender novos contextos, aprender outras competências e transitar pelas mudanças que certamente acontecerão ao longo de sua carreira.

Inteligência artificial na educação: ponte ou atalho?

Na parte da tarde, participei de um painel dedicado aos desafios da implementação e do uso da inteligência artificial nas relações educacionais, envolvendo estudantes, professores e instituições de ensino.

Durante a conversa, discutimos uma diferenciação que considero especialmente importante: a inteligência artificial pode funcionar como uma ponte ou como um atalho.

Quando utilizada como ponte, ela conecta o estudante a novos conhecimentos. Pode ampliar uma pesquisa, apresentar diferentes perspectivas, ajudar na comparação de informações, esclarecer dúvidas e permitir que determinada questão seja explorada com muito mais profundidade.

Nesse cenário, a IA facilita o acesso ao conhecimento e amplia as possibilidades de aprendizagem sem retirar do estudante a responsabilidade de compreender aquilo que está estudando.

O desafio começa quando essa ponte se transforma em atalho.

Durante o painel, usei um exemplo bastante simples: o dever de casa.

Se um estudante utiliza a inteligência artificial para entender melhor uma questão, buscar outras explicações, testar um raciocínio ou aprofundar uma pesquisa, ela está contribuindo para o processo de aprendizagem.

Mas, quando ele simplesmente pede à IA que faça o dever de casa e entrega aquela resposta, está delegando justamente uma atividade que deveria contribuir para sua formação.

O mesmo raciocínio vale para escrever um texto, interpretar uma informação, construir uma argumentação ou resolver uma questão.

Quando terceirizamos continuamente essas atividades para a inteligência artificial, podemos comprometer a interiorização do conhecimento e o próprio desenvolvimento cognitivo.

Por isso, a discussão sobre IA na educação precisa ir além de permitir ou proibir seu uso. Precisamos discutir como utilizá-la de maneira que contribua efetivamente para o aprendizado.

A inteligência artificial pode ser uma excelente ponte para o conhecimento, mas não deveria se transformar em um atalho para evitar o processo de aprender.

A FNE como espaço para ajudar o jovem a enxergar caminhos

A dimensão alcançada pela Feira Norte do Estudante ajuda a entender a importância desse debate.

Ao longo dos três dias, a FNE 2026 recebeu 7.829 participantes, reuniu 26 expositores e promoveu 60 palestras com 117 especialistas, além de oferecer 273 vagas de emprego.

Desde sua criação, em 2010, a FNE já impactou mais de 100 mil estudantes.

Mais do que apresentar cursos e possibilidades de formação, a feira criou um ambiente no qual estudantes puderam conversar com profissionais, conhecer instituições, descobrir novas áreas e compreender melhor algumas das transformações que estão acontecendo no mercado de trabalho.

Nesse sentido, a FNE cumpre um papel importante justamente em um momento em que tantas decisões precisam ser tomadas diante de um cenário pouco previsível.

Para o jovem que está escolhendo uma graduação, buscando a primeira oportunidade profissional ou simplesmente tentando entender quais possibilidades existem, ter acesso a diferentes experiências e perspectivas ajuda a tornar esse caminho um pouco mais claro.

E agora?

A velocidade de evolução da inteligência cria novos recursos que podem alterar processos e modelos de negócio em intervalos cada vez menores. Isso não reduz a importância dos hard skills. As competências técnicas continuarão sendo essenciais para qualquer profissão.

Mas a capacidade de interpretar contextos, comunicar ideias, lidar com pessoas, aprender rapidamente, gerenciar mudanças e se adaptar tende a ser tão importante quanto o domínio técnico.

Tecnologias, conhecimentos e profissões continuarão evoluindo, e o profissional mais preparado provavelmente será aquele capaz de acompanhar essas transformações sem depender exclusivamente de uma competência específica adquirida em determinado momento da carreira.

Foi esse tipo de reflexão que a FNE 2026 ajudou a colocar em pauta: milhares de jovens tentando compreender um futuro que ainda está sendo construído, enquanto professores, profissionais e instituições tentam ajudar esses estudantes a tomar decisões que precisam ser feitas agora.

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By Andre Aguiar

André Aguiar coordena o MBA AI-Native em Marketing Digital da Universidade Cândido Mendes, com lançamento previsto para 2027. O conceito AI-Native define uma formação em que a inteligência artificial não aparece como ferramenta complementar, mas como elemento central da estratégia, da criação, da mídia, da análise de dados e da tomada de decisão em marketing. Professor, palestrante, autor e especialista na área, atua há mais de 15 anos na formação de profissionais e na liderança de projetos para marcas como Cury Construtora e Hotel Nacional. Também ministrou treinamentos para corretores da DTB Florida Realty, nos Estados Unidos, e trabalhou por dois anos em Portugal em ações ligadas ao Programa Regressar, do governo português. Escreve ainda para veículos de Portugal e da Suíça sobre marketing, inteligência artificial, inovação, negócios e transformação digital. Sempre conectando conhecimento acadêmico às necessidades concretas do mercado.

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